O Diário Gráfico enquanto recurso e discurso semiótico

estudos de língua, comunicação e cultura
o diário gráfico enquanto recurso e discurso semiótico
Publicação do artigo “O Diário Gráfico enquanto recurso e discurso semiótico” nos Cadernos Universitários nº7, Estudos de Língua, Comunicação e Cultura III, Célia Vieira (org.), Edições ISMAI (Instituto Superior da Maia).

Resumo
Através do recurso a metodologias e conceitos sócio-semióticos, são aqui abordados os significados, usos e funções do Diário Gráfico, ao serviço da construção de discursos semióticos. O Diário Gráfico surge como um poderoso instrumento não só na exploração de conceitos, mas também na comunicação e representação desses mesmos conceitos, transformando-se assim num importante recurso semiótico ao serviço da construção de novos discursos. O projecto Estrada Nacional Nº2, levado a cabo por João Catarino, será analisado com o intuito de perceber os usos e funções associados a este objecto e, dessa forma, justificar o seu potencial semiótico.

Palavras-chave
Semiótica, Sócio-Semiótica, Diário Gráfico, Comunicação Visual, Cultura Visual.

“Fragmentos do espaço e do tempo (de um Diário de terreno)” na Revista Aliás #2, 2011

revista aliás capa
montemuro
(Fotografia e texto de Fernando Faria Paulino | Desenho de Tiago Cruz)

Fevereiro de 2001. Serra de Montemuro.
Altitude, cerca de 1400m no seu ponto mais alto.

montemuro

Uma vez mais acompanho Jorge Cardoso, o último dos maiorais dos pastores transumantes, e o seu rebanho no ciclo diário do pastoreio.
Uma viagem em que pastor e rebanho definem o percurso que nos conduzirá algures, a um dos pontos mais altos da serra.

montemuro

Ao longo do percurso, apenas escuto os sons dos chocalhos e dos sinos que as ovelhas transportam. O vento encarrega-se de misturá-los. Por vezes um grito, uma ordem, dirigido a alguma ovelha mais atrasada.

montemuro

A subida prossegue, lentamente. O pastoreio confunde-se com o ciclo do tempo, minuto a minuto, hora após hora, sem grandes pausas. Pastor e rebanho parecem fazer parte da própria natureza.

montemuro

Apenas uma paragem, o almoço, o limite da subida. Um tempo que é aproveitado para recordar percursos carregados de memórias, histórias e vivências.
Jorge Cardoso relembra com saudade as campanhas transumantes de outros tempos. Rebanhos com milhares de cabeças de gado. A permanência na serra, dia após dia, noite após noite…

Era uma coisa bonita, a viagem! Acabou tudo!
Os novos não querem e os velhos não podem!

montemuro

Regressamos por caminhos diferentes. A descida é igualmente lenta. E à medida que se aproxima o final do dia, aproximamo-nos igualmente da aldeia. O cálculo das horas é preciso, rigoroso, sem recurso a qualquer tipo de instrumento.
Um espaço e um tempo que Jorge Cardoso – o último maioral transumante – parece controlar.

“UrbanSketching Amarante” na Revista Aliás #2, 2011

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urbansketching amarante
amarante

Enquanto fazia um registo do convento e igreja de São Gonçalo, em Amarante, ouvi uma rapariga dizer “Caneta fotográfica!! Já viste?! Vou ser eu a inventar!!”. Não olhei para ver quem era mas registei imediatamente a frase na página oposta aquela em que estava a desenhar.

O raciocínio faz algum sentido. No entanto, através do desenho, consigo um tipo de relação com o que me rodeia que é ligeiramente distinta da relação que as pessoas em geral mantêm com o real através da máquina fotográfica. Vivemos numa sociedade sem tempo. Vejo as pessoas carregarem centenas de ficheiros nas suas máquinas fotográficas digitais porque simplesmente não tiveram tempo para apreciar aquilo que registaram e, nesse sentido, fica apenas o “para mais tarde recordar”. Mas haverá alguma coisa para recordar mais tarde? Absorvem o superficial em grande quantidade.

amarante

O desenho à vista obriga a uma atitude bastante diferente.

Obriga-me a escolher o local para me sentar, a observar com atenção o que vou desenhar, de que perspectiva e com que materiais. Depois o pensamento desliga e o espaço é percepcionado com uma concentração e intensidade que me transportam para um estado de alerta e atenção fora do comum. Não é à toa que muitos desenhadores dizem que, quando olham para um desenho que fizeram à muito tempo atrás, lembram-se perfeitamente do momento em que o fizeram como se tivesse sido feito à poucos minutos. O envolvimento entre observador e observado é intenso, é silencioso, é um momento de entrega. Os odores misturados, o burburinho dos animais e das pessoas, os comentários, as particularidades do que se desenha, a interacção e a dinâmica do espaço, as relações entre os sujeitos, as actividades que se desenrolam…

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Os desenhos aqui apresentados são retirados do meu diário gráfico e são uma série de registos feitos em Amarante ao longo de duas estadias em dois momentos diferentes. Não seguem uma ordem cronológica particular. Apenas um percurso em redor da Ponte Velha e que termina no interior do Museu Amadeo de Sousa Cardoso.