“Fragmentos do espaço e do tempo (de um Diário de terreno)” na Revista Aliás #2, 2011

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(Fotografia e texto de Fernando Faria Paulino | Desenho de Tiago Cruz)

Fevereiro de 2001. Serra de Montemuro.
Altitude, cerca de 1400m no seu ponto mais alto.

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Uma vez mais acompanho Jorge Cardoso, o último dos maiorais dos pastores transumantes, e o seu rebanho no ciclo diário do pastoreio.
Uma viagem em que pastor e rebanho definem o percurso que nos conduzirá algures, a um dos pontos mais altos da serra.

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Ao longo do percurso, apenas escuto os sons dos chocalhos e dos sinos que as ovelhas transportam. O vento encarrega-se de misturá-los. Por vezes um grito, uma ordem, dirigido a alguma ovelha mais atrasada.

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A subida prossegue, lentamente. O pastoreio confunde-se com o ciclo do tempo, minuto a minuto, hora após hora, sem grandes pausas. Pastor e rebanho parecem fazer parte da própria natureza.

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Apenas uma paragem, o almoço, o limite da subida. Um tempo que é aproveitado para recordar percursos carregados de memórias, histórias e vivências.
Jorge Cardoso relembra com saudade as campanhas transumantes de outros tempos. Rebanhos com milhares de cabeças de gado. A permanência na serra, dia após dia, noite após noite…

Era uma coisa bonita, a viagem! Acabou tudo!
Os novos não querem e os velhos não podem!

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Regressamos por caminhos diferentes. A descida é igualmente lenta. E à medida que se aproxima o final do dia, aproximamo-nos igualmente da aldeia. O cálculo das horas é preciso, rigoroso, sem recurso a qualquer tipo de instrumento.
Um espaço e um tempo que Jorge Cardoso – o último maioral transumante – parece controlar.

“UrbanSketching Amarante” na Revista Aliás #2, 2011

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Enquanto fazia um registo do convento e igreja de São Gonçalo, em Amarante, ouvi uma rapariga dizer “Caneta fotográfica!! Já viste?! Vou ser eu a inventar!!”. Não olhei para ver quem era mas registei imediatamente a frase na página oposta aquela em que estava a desenhar.

O raciocínio faz algum sentido. No entanto, através do desenho, consigo um tipo de relação com o que me rodeia que é ligeiramente distinta da relação que as pessoas em geral mantêm com o real através da máquina fotográfica. Vivemos numa sociedade sem tempo. Vejo as pessoas carregarem centenas de ficheiros nas suas máquinas fotográficas digitais porque simplesmente não tiveram tempo para apreciar aquilo que registaram e, nesse sentido, fica apenas o “para mais tarde recordar”. Mas haverá alguma coisa para recordar mais tarde? Absorvem o superficial em grande quantidade.

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O desenho à vista obriga a uma atitude bastante diferente.

Obriga-me a escolher o local para me sentar, a observar com atenção o que vou desenhar, de que perspectiva e com que materiais. Depois o pensamento desliga e o espaço é percepcionado com uma concentração e intensidade que me transportam para um estado de alerta e atenção fora do comum. Não é à toa que muitos desenhadores dizem que, quando olham para um desenho que fizeram à muito tempo atrás, lembram-se perfeitamente do momento em que o fizeram como se tivesse sido feito à poucos minutos. O envolvimento entre observador e observado é intenso, é silencioso, é um momento de entrega. Os odores misturados, o burburinho dos animais e das pessoas, os comentários, as particularidades do que se desenha, a interacção e a dinâmica do espaço, as relações entre os sujeitos, as actividades que se desenrolam…

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Os desenhos aqui apresentados são retirados do meu diário gráfico e são uma série de registos feitos em Amarante ao longo de duas estadias em dois momentos diferentes. Não seguem uma ordem cronológica particular. Apenas um percurso em redor da Ponte Velha e que termina no interior do Museu Amadeo de Sousa Cardoso.

“Riscos” na Revista Aliás #1, 2010

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(imagem esq: estudo de personagem | imagem dir: estudo para cenografia)

“Não há pessoas incapazes de aprender a desenhar, da mesma maneira que não há pessoas incapazes de aprender a escrever.” (Ana Leonor Rodrigues, 2003)

Só os artistas é que desenham?
O desenho é transversal e intradisciplinar.
É uma marca deixada numa superfície, pela acção do Homem, recorrendo a um determinado objecto riscante. É uma ferramenta, técnica e disciplina ao serviço da compreensão, do entendimento e da comunicação.
Desenhamos para compreender e para expressar.
Um artista, um carpinteiro, um professor, um cientista, um calceteiro, um cozinheiro, etc., todos desenham.
Desenhamos quando pretendemos clarificar uma ideia ou conceito.
Desenhamos quando queremos explicar o trajecto para um restaurante a um amigo.
Desenhamos para representar o que vemos para mais tarde recordar.
Desenhamos para analisar a forma de um objecto.
Desenhamos para matar tempo numa conversa chata ao telefone.
Desenhamos porque o acto de riscar ajuda a resolver um problema.
Desenhamos quando alguém não está a compreender o que estamos a querer dizer.
Desenhamos para documentar o real.

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(esq: Fachada do Hotal Ofir (Ofir – Esposende) | dir: Estação do Castêlo da Maia na fase em que estava em obras para a construção da actual estação de metro.)
Está em causa o acto de pensar e/ou expressar.
De um lado aparecem desenhos sem nenhuma intenção comunicativa, sem uma finalidade em si mesmos.
São desenhos para não serem vistos excepto por quem os criou.
Do outro aparecem desenhos com intenções comunicativas, com uma finalidade em si. É aqui que se encontra o desenho como “obra de arte”.
São desenhos para serem vistos (lidos) por outras pessoas.
Segundo Mário Bismark, de um lado está o “desenhar”, o verbo, e do outro está o desenho.

“A obra é então o fim do desenho, fim no sentido do terminar de uma acção que o legitimizou, mas também e portanto, no sentido da sua morte, mas não é o fim no sentido da sua finalidade…” (Mário Bismarck, 2007)

Podemos falar em vários tipos de desenho.
Juan Gomez Molina (2005) enumera uma série deles.
Desenho analítico, descritivo, naturalista, conceptual, abstracto, esquemático, poético, científico, técnico, linear, artístico, artesanal, ornamental, decorativo e animado.

Não vale a pena falar sobre cada um destes tipos.
Apenas é importante perceber que um desenho serve propósitos muito diversos, desempenhando assim funções que podem ser bastante distintas umas das outras.

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(esq: Estudo de personagem | dir: Storyboard para documentário)
Para mim desenhar (riscar) é como respirar.
Os desenhos são uma marca deixada por alguém e essa marca representa alguma coisa.
Nesse sentido um desenho é uma imagem que fala sobre quem o criou, sobre a sua visão e o seu pensamento.
Sobre o que está representado, sobre a cultura, sobre o real e a realidade.
Um desenho é uma opinião.
Por vezes faz parte de um processo de criação para chegar a algum lado.
Coisas que são deitadas cá para fora com o intuito de organizar, clarificar e desenvolver ideias.
Ao longo desse processo, dessa acção, observamos, experimentamos, corrigimos, erramos, solucionamos, imaginamos, organizamos, recordamos, visualizamos…

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(esq: esboços | dir: Estudo para cenografia)
Desenho muitas vezes para comunicar comigo mesmo.
É depois de riscar que muitas vezes me compreendo.

Os desenhos que apresento foram retirados dos meus diários gráficos e, como tal, na sua origem, servem o pensar. Neste momento, saem do diário gráfico e servem o expressar. Passam assim a fronteira do privado para o público, do interno para o externo.

BISMARCK, Mário (2007), Desenhar é o Desenho, FBAUP – Acta de conferência
CORTE-REAL, Eduardo (2009), Um Suave Guia para o Desenho em Viagem, Livros Horizonte, Lisboa
MOLINA, Juan Gomez et al (2005), Los Nombre del Dibujo, Cátedra, Madrid
RODRIGUES, Ana Leonor (2003), Desenho, Quimera, Lisboa
SALAVISA, Eduardo (2008), Diários de Viagem: desenhos do quotidiano, Quimera, Lisboa